domingo, 16 de agosto de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
MISSA DO GALO
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
- Ainda não foi? Perguntou ela.
- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
- Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
- Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
- Justamente: é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
E logo alto:
- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
- Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
- Eu também sou assim.
- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
- Foi o que lhe aconteceu hoje.
- Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
- Mais baixo, mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
- São bonitos, disse eu.
- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
- Já serão horas? perguntei.
- Naturalmente.
- Missa do galo! repetiram de fora, batendo.
-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
- Ainda não foi? Perguntou ela.
- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
- Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
- Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
- Justamente: é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
E logo alto:
- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
- Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
- Eu também sou assim.
- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
- Foi o que lhe aconteceu hoje.
- Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
- Mais baixo, mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
- São bonitos, disse eu.
- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
- Já serão horas? perguntei.
- Naturalmente.
- Missa do galo! repetiram de fora, batendo.
-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Um Adorável Mundo Poético
Um Adorável Mundo Poético
“-Já imaginastes, caro Poeta, o senhor na presidência?- Faria poesia, ao invés de lei...- E o país morreria na leitura, enquanto engole o caos” (Livro do Preságio – Parte 5)Já fazia dois séculos que o novo regime político, Poetracia, inaugurava naquela sociedade culturalmente cultua, o poder dos poetas e até onde a maré andava, a vida era boa. Bem, pelo menos, no que diz respeito a gigante camada de artística social daquele pais. Entretanto, a minoria, herdeira por gerações do extinto sistema cleptocrático e plutocrático, via nessa história toda de um sistema “justo pelas palavras, honesto pelo coração”, uma bobagem sistemática intelectual, proposta poetas tortuosos que naquele ano de 2114, tomaram o poder vigente do país à base de poesia e palavras, com, o que hoje conhecemos como; o lema da bandeira: “A caneta é mais forte que a espada”.Por gerações, essa minoria manteve-se reclusa e quase obsoleta dos holofotes verborreicos dos meios de comunicação poéticos do país, até que, pela oportunidade apresentada no agravante de uma crise econômica sem precedentes, eles exporem seus rostos. Descobriu-se que a minoria era dividida em pequenos grupos, três nas verdades, M.A.C.C (Milícia Armada da Classe C), M.A.C.B (Milícia Armada da Classe B) e E.S.C (Exército Sobrevivente do Capitalismo). Cada grupo tem um objetivo diferente do outro, porém, único em um âmbito geral, destronar o presidente do país da Poesia, Poeta D.Na verdade, pelos livros antigos de história, sabe-se que o País das Poesias, na verdade tinha um outro nome, mas por razões de segurança nacional, tal nome fora riscado na única cópia que existia do livro, sendo assim, o nome é apenas uma lenda.O líder do grupo E.S.C, Carlos Frederico, expôs seu rosto nos impressos vulgares do país a quase seis anos atrás, de lá para cá, tornou-se alvo das piores críticas de jornais, crônicas sociais, poesias vulgares e textos supra-sumos de fanzines corporativos. Como alvo constante de poetas e artistas, Carlos Frederico, fez a única coisa que sua racionalidade, doutrinada nos antigos ensinamentos cleptopoliticos propusera, atacar o parlamento das Palavras com uma bomba humana, travestida em uma caótica fantasia de unicórnio.A bomba explodiu metade do parlamento e a outra metade tornou-se uma silaba morta. Procurando dizer o que acredita, Carlos, ainda ousou em transgredir duas ações após a explosão, a primeira escrever a sentença maldita “Eu vou destrolnar vc Poet’s D” e a segunda ação; roubar a caneta de ouro, um artefato simbólico que representa todos os idéias da Poetracia.As duas ações causaram um alvoroço tremendo no gabinete do presidente, a oração gramaticalmente errada, e a caneta foram o golpe baixo de um atentado contra a intelectualidade. Assim, tomado por um juízo maior, o ministro de Defesa de todas as Orações, propôs uma emenda constitucional a fim de eliminar de uma vez por todas, essa minoria egoísta e ignorante. A emenda nº417 diz que, qualquer ser vivo, com um QI abaixo de 10.1, será sumariamente eliminado, sem consenso jurídico e sem desculpa.A lei foi tão rígida, tão rígida, que naquele mesmo ano, todas as árvores do país, animais de pequeno e grande porte, e qualquer outra coisa que se enquadrava biologicamente como um ser vivo, foram sumariamente eliminado do mapa. Obviamente, que no inicio houve bastante trepidação no congresso da poesia, mas como nenhum poeta volta atrás no que diz, a lei foi cumprida ao pé da letra.Como não era de conhecimento artístico, e poético, que as árvores e toda vegetação da terra, era de um equilíbrio extremo para o ecossistema do planeta, transformando nosso gás carbônico em oxigênio, o mundo entrou em um declínio que culminaria no fim dos tempos.Terremotos, furacões, maremotos, e toda desgraça bíblica começou a atacar o país das Poesias. Naquele súbito instante, mediante desesperos e versos lindos sobre o fim do mundo, eis que um raio de sol surge entre os povos e faz surgir a primeira flor após a imensa devastação ocasionada.Era preciso agora, apenas agüentar, pois a natureza encontraria seu ciclo novamente.Passado alguns anos, quando a vegetação já começava a apresentar sinais de restauração do país, o então presidente poeta D, decide por autocompetência, abdicar do trono, para a alegria da minoria. Antes, porém, em seu celebre discurso, ele evidenciou a necessidade de um regime político que favorece a burrice, já que a intelectualidade causou graves transtornos no planeta, batizou essa forma de governo como Democracia e instruiu o líder do E.S.C, ex-terrorista, como o primeiro presidente de um novo pais Democrático.A tantos aplausos, choros, versos inconsoláveis, o poeta D se despediu da política para sempre, esperando que a tal flor realmente fosse um sinal de esperança.Fim
Maycon Batestin
Publicado no Recanto das Letras em 29/07/2009Código do texto: T1726150
“-Já imaginastes, caro Poeta, o senhor na presidência?- Faria poesia, ao invés de lei...- E o país morreria na leitura, enquanto engole o caos” (Livro do Preságio – Parte 5)Já fazia dois séculos que o novo regime político, Poetracia, inaugurava naquela sociedade culturalmente cultua, o poder dos poetas e até onde a maré andava, a vida era boa. Bem, pelo menos, no que diz respeito a gigante camada de artística social daquele pais. Entretanto, a minoria, herdeira por gerações do extinto sistema cleptocrático e plutocrático, via nessa história toda de um sistema “justo pelas palavras, honesto pelo coração”, uma bobagem sistemática intelectual, proposta poetas tortuosos que naquele ano de 2114, tomaram o poder vigente do país à base de poesia e palavras, com, o que hoje conhecemos como; o lema da bandeira: “A caneta é mais forte que a espada”.Por gerações, essa minoria manteve-se reclusa e quase obsoleta dos holofotes verborreicos dos meios de comunicação poéticos do país, até que, pela oportunidade apresentada no agravante de uma crise econômica sem precedentes, eles exporem seus rostos. Descobriu-se que a minoria era dividida em pequenos grupos, três nas verdades, M.A.C.C (Milícia Armada da Classe C), M.A.C.B (Milícia Armada da Classe B) e E.S.C (Exército Sobrevivente do Capitalismo). Cada grupo tem um objetivo diferente do outro, porém, único em um âmbito geral, destronar o presidente do país da Poesia, Poeta D.Na verdade, pelos livros antigos de história, sabe-se que o País das Poesias, na verdade tinha um outro nome, mas por razões de segurança nacional, tal nome fora riscado na única cópia que existia do livro, sendo assim, o nome é apenas uma lenda.O líder do grupo E.S.C, Carlos Frederico, expôs seu rosto nos impressos vulgares do país a quase seis anos atrás, de lá para cá, tornou-se alvo das piores críticas de jornais, crônicas sociais, poesias vulgares e textos supra-sumos de fanzines corporativos. Como alvo constante de poetas e artistas, Carlos Frederico, fez a única coisa que sua racionalidade, doutrinada nos antigos ensinamentos cleptopoliticos propusera, atacar o parlamento das Palavras com uma bomba humana, travestida em uma caótica fantasia de unicórnio.A bomba explodiu metade do parlamento e a outra metade tornou-se uma silaba morta. Procurando dizer o que acredita, Carlos, ainda ousou em transgredir duas ações após a explosão, a primeira escrever a sentença maldita “Eu vou destrolnar vc Poet’s D” e a segunda ação; roubar a caneta de ouro, um artefato simbólico que representa todos os idéias da Poetracia.As duas ações causaram um alvoroço tremendo no gabinete do presidente, a oração gramaticalmente errada, e a caneta foram o golpe baixo de um atentado contra a intelectualidade. Assim, tomado por um juízo maior, o ministro de Defesa de todas as Orações, propôs uma emenda constitucional a fim de eliminar de uma vez por todas, essa minoria egoísta e ignorante. A emenda nº417 diz que, qualquer ser vivo, com um QI abaixo de 10.1, será sumariamente eliminado, sem consenso jurídico e sem desculpa.A lei foi tão rígida, tão rígida, que naquele mesmo ano, todas as árvores do país, animais de pequeno e grande porte, e qualquer outra coisa que se enquadrava biologicamente como um ser vivo, foram sumariamente eliminado do mapa. Obviamente, que no inicio houve bastante trepidação no congresso da poesia, mas como nenhum poeta volta atrás no que diz, a lei foi cumprida ao pé da letra.Como não era de conhecimento artístico, e poético, que as árvores e toda vegetação da terra, era de um equilíbrio extremo para o ecossistema do planeta, transformando nosso gás carbônico em oxigênio, o mundo entrou em um declínio que culminaria no fim dos tempos.Terremotos, furacões, maremotos, e toda desgraça bíblica começou a atacar o país das Poesias. Naquele súbito instante, mediante desesperos e versos lindos sobre o fim do mundo, eis que um raio de sol surge entre os povos e faz surgir a primeira flor após a imensa devastação ocasionada.Era preciso agora, apenas agüentar, pois a natureza encontraria seu ciclo novamente.Passado alguns anos, quando a vegetação já começava a apresentar sinais de restauração do país, o então presidente poeta D, decide por autocompetência, abdicar do trono, para a alegria da minoria. Antes, porém, em seu celebre discurso, ele evidenciou a necessidade de um regime político que favorece a burrice, já que a intelectualidade causou graves transtornos no planeta, batizou essa forma de governo como Democracia e instruiu o líder do E.S.C, ex-terrorista, como o primeiro presidente de um novo pais Democrático.A tantos aplausos, choros, versos inconsoláveis, o poeta D se despediu da política para sempre, esperando que a tal flor realmente fosse um sinal de esperança.Fim
Maycon Batestin
Publicado no Recanto das Letras em 29/07/2009Código do texto: T1726150
terça-feira, 4 de agosto de 2009
O Amanhã
O Amanhã
Levantou cedo, estava ainda com os olhos fechados. Por instinto, de olhos fechados, calçou os chinelos. Após uns minutos abriu os olhos. Olhou em volta, a escuridão ainda reinava. Olhou com dificuldade na direção das janelas, as cortinas impediam a entrada dos raios do sol. Com passos vagarosos, seu ritmo habitual, correu as cortinas. O quarto clareou um pouco.Na cozinha, abria a porta superior do armário, que era preso por parafusos na parede. Encontrou alguns pães dentro duma sacola. Essa era a sua rotina, levantava cedo para trabalhar, voltava e ia para a cama para no dia seguinte voltar a fazer tudo de novo.Certa vez sem saber iria conhecer uma pessoa e está pessoa mudaria para sempre a sua rotina.A caminho do ponto combinado onde esperava o ônibus da empresa Caio antes de subir para o ônibus uma linda jovem passa por ele. No momento que ela passa por Caio ele tem uma leve impressão de que a jovem sorri para ele.Às oito horas de trabalho passa pensando nesta mulher.Na manhã seguinte ciente de que estava de férias do trabalho vai à mesma hora em que viu a jovem para o mercado certo de que a veria. Enquanto ia a caminho do mercado lembrou com dificuldade que vira a jovem muitas vezes e se perguntara por que só agora a reparara. Estranhou sua percepção. E aos poucos se deu conta de que a jovem usava óculos e vestia sempre uma saia preta até os joelhos e uma camisa azul ou amarela. Ficou admirado em poder descrevê-la mentalmente embora nunca se pegasse olhando diretamente para ela.Nesse momento a jovem passa por ele. Sem perceber Caio a segue. Ela pega um ônibus que passava logo após o ônibus da empresa que sempre passava pontualmente naquele horário. Ele a seguiu subiu ao ônibus e sentou três bancos atrás dela. Ao entrar no ônibus se admirou de a jovem cumprimentar o motorista e este sorrir satisfeito após o cumprimento. E conforme a jovem passava pelos bancos já preenchidos até sentar no seu banco o qual parecia ser habitual, as pessoas sorriam como se fosse um cumprimento costumeiro.“Deve ser casualidade. Ou ela é bem conhecida. Como não reparei nela antes.” Pensou ele consigo mesmo.O ônibus foi diretamente para o centro de Sorocaba. Conforme o ônibus ganhava as ruas Caio se viu entretido do lado de fora. Há tempos não ia para aqueles lados.Por um milagre ouviu a campainha tocar após a corda ser puxada e viu por reflexo o corpo esbelto da jovem parada a uns metros da porta. A porta se abriu e a moça desceu. Com um grito pediu ao motorista que abrisse a porta que iria descer. Desceu do ônibus quase sem fôlego. Tinha de saber aonde a jovem ia. Estava impressionado com tanta beleza.Ela subiu as escadas de um prédio que parecia ser um patrimônio histórico sorocabano. Curioso e certo de que aquele prédio era onde a jovem trabalhava Caio ergueu os olhos e leu calmamente e com um sorriso irônico que dizia Biblioteca Municipal, seja bem vindo! O conhecimento te espera. Era difícil de acreditar. Estava se sentindo atraído por uma jovem de óculos e bibliotecária, Caio riu meneando a cabeça. Parecia não acreditar.Cético deu meia volta sob os pés e procurou pegar o primeiro ônibus de volta para casa. A caminho de volta pra casa a imagem da silhueta da jovem não saia de sua cabeça.A noite de olhos fechados quase pegando no sono viu-se de pé diante do prédio onde havia ido e sentada nos degraus só de lingerie e um livro escondendo os decotes à jovem lia um livro, parecia estar entretida. Totalmente absorta à excitação que Caio era envolvido... -Quero fazer meu cadastro. –disse Caio a recepcionista.-Claro. Mas antes deverá conhecer as nossas instalações. –disse a recepcionista. Os olhos da recepcionista procuravam uma funcionaria que estivesse livre para ser o guia de Caio.- Raisa, por favor, querida. Venha até aqui, sim. –Caio estremeceu por um tempo quando viu que a jovem que lhe tirara o sono atendia pelo nome e com um sorriso encantador vinha na direção da recepção.- Esta é Raisa Rana. Ela te mostrará a biblioteca. Espero que goste.“Com certeza.” Pensou ele sorrindo para a recepcionista.- Então vamos. –convidou Raisa e Caio seguiu-a como se tivesse sido hipnotizado.Caio se esforçou para prestar atenção em todas as palavras que saíssem dos belos lábios de Raisa e fez as mais inteligentes perguntas que conseguiu fazer. E com isso não acabou entregando os pontos. Não queria revelar as suas verdadeiras intenções.- Qual seu nome? –perguntou ela quando pararam enfrente a porta que guardava um salão.- É Caio Garib. –disse ele mostrando interesse sobre a placa que dizia “o amanhã”.Raisa sorriu, estava satisfeita. Caio parecia ser um ótimo candidato a se associar à biblioteca. Pois revelou grande interesse, e olhava com olhar intrínseco para os letreiros ‘o amanhã’.- Quer saber o que tem por trás desta porta. –perguntou Raisa demonstrando entusiasmo com a possibilidade de mostrar a ele a sala do amanhã.Com um sorriso Caio disse sim.E ao abrir a porta e entrar seguido de Caio sem saber Raisa viu o sincero interesse de Caio.- Uau! –exclamou ele admirado.Raisa sorriu orgulhosa.Caio jamais havia visto uma sala daquele jeito. Era mais inacreditável do que a beleza e simpatia de sua guia. Apenas em filmes havia visto tanta tecnologia. Parecia ter entrado por engano numa sala de conferencia da NASA ou uma feira de ciência.Pessoas usavam os produtos tecnológicos como se fossem partes de suas vidas.Jovens, crianças e até mesmo adultas e idosas estavam entretidas na leitura de um estranho livro.- Este é o leitor eletrônico –disse Raisa ao se aproximarem de um pequeno grupo de crianças e pedir o leitor de uma delas para que Caio visse. –Temos aqui uma sala do amanhã. Nela as pessoas se acostumarão com o que vem pela frente. É um projeto idealizador da prefeitura. Acho que você leu algum artigo a respeito.- Sim. Diga mais. –disse Caio tentando esconder sua surpresa e tentando fazê-la se interessar por ele. Mas aos poucos Caio sentiu-se mais inclinado a abandonar o plano original e apreciar o advento do amanhã.- Estamos prestes a expandir o projeto. Recebemos muitas visitas de pessoas e de escolas aqui na sala do amanhã.- Esta sala –disse Caio procurando palavras para descrever o que via –é uma espécie de Avatar do amanhã.- Exatamente! Tirou palavras da minha boca. –disse Raisa entusiasmada por Caio estar verdadeiramente se interagindo.Caio viu mais a frente telas grandes e médias onde pessoas com as mãos pareciam fazer uma pesquisa detalhada de assuntos variados. Era inacreditável. Aquela sala era tão sedutora quanto à beleza de Raisa.Aqui também temos livros. Eles serão preservados para aqueles que quiserem folhear uma pagina. Digamos para colecionadores.- Impressionante. –disse Caio ponderadamente.Enquanto prosseguiu em conhecer a sala do amanhã se perguntou como nunca havia se interessado a esta nova forma de ter conhecimento.- Bom –disse Raisa olhando-o nos olhos. Caio se sentiu desnorteado por um instante, mas logo retomou o controle. –ainda está interessado em se cadastrar? Seria bom tê-lo conosco senhor Garib.- Claro que estou. E digo mais, minha intenção é estar no camarote quando ‘o amanhã’ ser recebido alegremente por Sorocaba e quero ver ser alastrado por todo o Brasil. –disse Caio sinceramente.
Fernão Batilo
Publicado no Recanto das Letras em 01/08/2009Código do texto: T1731118
Levantou cedo, estava ainda com os olhos fechados. Por instinto, de olhos fechados, calçou os chinelos. Após uns minutos abriu os olhos. Olhou em volta, a escuridão ainda reinava. Olhou com dificuldade na direção das janelas, as cortinas impediam a entrada dos raios do sol. Com passos vagarosos, seu ritmo habitual, correu as cortinas. O quarto clareou um pouco.Na cozinha, abria a porta superior do armário, que era preso por parafusos na parede. Encontrou alguns pães dentro duma sacola. Essa era a sua rotina, levantava cedo para trabalhar, voltava e ia para a cama para no dia seguinte voltar a fazer tudo de novo.Certa vez sem saber iria conhecer uma pessoa e está pessoa mudaria para sempre a sua rotina.A caminho do ponto combinado onde esperava o ônibus da empresa Caio antes de subir para o ônibus uma linda jovem passa por ele. No momento que ela passa por Caio ele tem uma leve impressão de que a jovem sorri para ele.Às oito horas de trabalho passa pensando nesta mulher.Na manhã seguinte ciente de que estava de férias do trabalho vai à mesma hora em que viu a jovem para o mercado certo de que a veria. Enquanto ia a caminho do mercado lembrou com dificuldade que vira a jovem muitas vezes e se perguntara por que só agora a reparara. Estranhou sua percepção. E aos poucos se deu conta de que a jovem usava óculos e vestia sempre uma saia preta até os joelhos e uma camisa azul ou amarela. Ficou admirado em poder descrevê-la mentalmente embora nunca se pegasse olhando diretamente para ela.Nesse momento a jovem passa por ele. Sem perceber Caio a segue. Ela pega um ônibus que passava logo após o ônibus da empresa que sempre passava pontualmente naquele horário. Ele a seguiu subiu ao ônibus e sentou três bancos atrás dela. Ao entrar no ônibus se admirou de a jovem cumprimentar o motorista e este sorrir satisfeito após o cumprimento. E conforme a jovem passava pelos bancos já preenchidos até sentar no seu banco o qual parecia ser habitual, as pessoas sorriam como se fosse um cumprimento costumeiro.“Deve ser casualidade. Ou ela é bem conhecida. Como não reparei nela antes.” Pensou ele consigo mesmo.O ônibus foi diretamente para o centro de Sorocaba. Conforme o ônibus ganhava as ruas Caio se viu entretido do lado de fora. Há tempos não ia para aqueles lados.Por um milagre ouviu a campainha tocar após a corda ser puxada e viu por reflexo o corpo esbelto da jovem parada a uns metros da porta. A porta se abriu e a moça desceu. Com um grito pediu ao motorista que abrisse a porta que iria descer. Desceu do ônibus quase sem fôlego. Tinha de saber aonde a jovem ia. Estava impressionado com tanta beleza.Ela subiu as escadas de um prédio que parecia ser um patrimônio histórico sorocabano. Curioso e certo de que aquele prédio era onde a jovem trabalhava Caio ergueu os olhos e leu calmamente e com um sorriso irônico que dizia Biblioteca Municipal, seja bem vindo! O conhecimento te espera. Era difícil de acreditar. Estava se sentindo atraído por uma jovem de óculos e bibliotecária, Caio riu meneando a cabeça. Parecia não acreditar.Cético deu meia volta sob os pés e procurou pegar o primeiro ônibus de volta para casa. A caminho de volta pra casa a imagem da silhueta da jovem não saia de sua cabeça.A noite de olhos fechados quase pegando no sono viu-se de pé diante do prédio onde havia ido e sentada nos degraus só de lingerie e um livro escondendo os decotes à jovem lia um livro, parecia estar entretida. Totalmente absorta à excitação que Caio era envolvido... -Quero fazer meu cadastro. –disse Caio a recepcionista.-Claro. Mas antes deverá conhecer as nossas instalações. –disse a recepcionista. Os olhos da recepcionista procuravam uma funcionaria que estivesse livre para ser o guia de Caio.- Raisa, por favor, querida. Venha até aqui, sim. –Caio estremeceu por um tempo quando viu que a jovem que lhe tirara o sono atendia pelo nome e com um sorriso encantador vinha na direção da recepção.- Esta é Raisa Rana. Ela te mostrará a biblioteca. Espero que goste.“Com certeza.” Pensou ele sorrindo para a recepcionista.- Então vamos. –convidou Raisa e Caio seguiu-a como se tivesse sido hipnotizado.Caio se esforçou para prestar atenção em todas as palavras que saíssem dos belos lábios de Raisa e fez as mais inteligentes perguntas que conseguiu fazer. E com isso não acabou entregando os pontos. Não queria revelar as suas verdadeiras intenções.- Qual seu nome? –perguntou ela quando pararam enfrente a porta que guardava um salão.- É Caio Garib. –disse ele mostrando interesse sobre a placa que dizia “o amanhã”.Raisa sorriu, estava satisfeita. Caio parecia ser um ótimo candidato a se associar à biblioteca. Pois revelou grande interesse, e olhava com olhar intrínseco para os letreiros ‘o amanhã’.- Quer saber o que tem por trás desta porta. –perguntou Raisa demonstrando entusiasmo com a possibilidade de mostrar a ele a sala do amanhã.Com um sorriso Caio disse sim.E ao abrir a porta e entrar seguido de Caio sem saber Raisa viu o sincero interesse de Caio.- Uau! –exclamou ele admirado.Raisa sorriu orgulhosa.Caio jamais havia visto uma sala daquele jeito. Era mais inacreditável do que a beleza e simpatia de sua guia. Apenas em filmes havia visto tanta tecnologia. Parecia ter entrado por engano numa sala de conferencia da NASA ou uma feira de ciência.Pessoas usavam os produtos tecnológicos como se fossem partes de suas vidas.Jovens, crianças e até mesmo adultas e idosas estavam entretidas na leitura de um estranho livro.- Este é o leitor eletrônico –disse Raisa ao se aproximarem de um pequeno grupo de crianças e pedir o leitor de uma delas para que Caio visse. –Temos aqui uma sala do amanhã. Nela as pessoas se acostumarão com o que vem pela frente. É um projeto idealizador da prefeitura. Acho que você leu algum artigo a respeito.- Sim. Diga mais. –disse Caio tentando esconder sua surpresa e tentando fazê-la se interessar por ele. Mas aos poucos Caio sentiu-se mais inclinado a abandonar o plano original e apreciar o advento do amanhã.- Estamos prestes a expandir o projeto. Recebemos muitas visitas de pessoas e de escolas aqui na sala do amanhã.- Esta sala –disse Caio procurando palavras para descrever o que via –é uma espécie de Avatar do amanhã.- Exatamente! Tirou palavras da minha boca. –disse Raisa entusiasmada por Caio estar verdadeiramente se interagindo.Caio viu mais a frente telas grandes e médias onde pessoas com as mãos pareciam fazer uma pesquisa detalhada de assuntos variados. Era inacreditável. Aquela sala era tão sedutora quanto à beleza de Raisa.Aqui também temos livros. Eles serão preservados para aqueles que quiserem folhear uma pagina. Digamos para colecionadores.- Impressionante. –disse Caio ponderadamente.Enquanto prosseguiu em conhecer a sala do amanhã se perguntou como nunca havia se interessado a esta nova forma de ter conhecimento.- Bom –disse Raisa olhando-o nos olhos. Caio se sentiu desnorteado por um instante, mas logo retomou o controle. –ainda está interessado em se cadastrar? Seria bom tê-lo conosco senhor Garib.- Claro que estou. E digo mais, minha intenção é estar no camarote quando ‘o amanhã’ ser recebido alegremente por Sorocaba e quero ver ser alastrado por todo o Brasil. –disse Caio sinceramente.
Fernão Batilo
Publicado no Recanto das Letras em 01/08/2009Código do texto: T1731118
contos
Pai contra Mãe
Os olhos de Leandro percorreram com cuidado os anúncios dos classificados de empregos. Sua mão tremula de ansiedade marcaram com um circulo os empregos que lhe interessaram. Tinha vinte e quatro anos e a possibilidade de não mais passar o fim de semana com o filho de três anos a uma semana não dormia, pensava tanto que a ansiedade causou a escassez do sono.Olhou para o relógio preso a parede informava o horário. Sete e meia da manhã. Colocou o jornal de volta no plástico e foi até a entrada da casa vizinha se inclinou diante da garagem e lançou o jornal da forma que o jornaleiro sem pré fazia. O jornal caíra próximo ao carro.No corredor do quintal de sua casa Leandro se lembrou que em outros tempos estaria voltando aquele horário para casa. Tentava se lembrar da balada da noite anterior havia perdido. Estalou a língua dentro da boca e olhou para o nada maliciosamente.Mas a lembrança das palavras de sua mãe esbofeteou seu rosto.“Se esse menino que nasceu não conseguir te dar juízo vai rancar dinheiro de você. Uma coisa ou outra... você vai ter responsabilidade... ou vai chegar mais perto a isso.” –disse sua mãe quando uma menina de exatamente dezessete anos havia aparecido na porta da sua casa.Naquela manhã há três anos atrás havia se arrependido de ter mostrado a casa onde morava a menina que ficou uma única vez. Mas agora o lamento deu lugar a oportunidade de uma nova vida mesmo continuando a ser pai solteiro ter uma criança que desde o primeira tarde que passou com ela conquistou-lhe pelo resto da vida.Leandro deixou o corpo cair sobre a cama. Não fechou os olhos. Tinha de estar pronto para sair para procurar emprego no momento em que sua mãe saia para sair.Tinha vinte minutos e não fechou os alhos até oito horas ou até ouvir os passos despertadores da mãe que ecoava no pequeno corredor do quarto para a cozinha.Leandro riu de si mesmo pelo fato de fazer esforço para recordar-se dos endereços de emprego ainda que ele próprio sempre confessasse ser uma negação para lembrar nomes ou datas comemorativas. Sempre trocava os nomes das garotas que ficava na mesma noite e chegava até dar a elas novos nomes. Mas uma coisa todos concordava, era um mestre em se tratar de sair de situações difíceis. Mas a beira de perder o direito de ver seu filho ao menos nos fins de semana e ir preso por falta de pagamento da pensão o fez perder o sono. Há uma semana não dormia direito.Também havia a pressão que sua mãe impunha a ele. Leandro dava razão à mãe. A mais de um ano seus pais haviam se separado. Era seu pai que pagava a pensão para seu filho. Enquanto Leandro pernoitava nas baladas da cidade.“Agora que seu pai se foi é hora de você conhecer o lado sério da vida. –disse sua mãe entrando no quarto do filho que estava se arrumando para outra balada. –Seu pai vai pagar a pensão por três meses apenas tempo suficiente para você encontrar um emprego. Verônica disse que vai até chegar a aceitar um acordo verbal caso você não possa pagar o preço pedido pela juíza.”E o riscou de não ver mais o filho com freqüência tirou-lhe a vontade de sair.“Assim acaba o tesão mãe. Viu só acabou com a minha brisa.” –Leandro reclamou preocupado.“Fico feliz que isso tudo surtiu efeito Leandro. Olha, há males que vem para o bem. Queira Deus que seja o seu caso.” –disse sua mãe saindo do quarto.-Leandro o Rubens ta te chamando! –gritou sua mãe do banheiro.Leandro deu um pelo. Apagou a luz do quarto e saiu.Havia marcado ir entregar currículo com Rubens.-Vamos a pé assim economizamos. Quem sabe você resolve ir pra balada –disse Rubens esperançoso. Leandro deu de ombros ao comentário do amigo.A certa altura da Avenida Leandro perguntou ao amigo.- Viu o jogo ontem? –perguntou ele a Rubens atravessando a rua.-Não. Fui pra balada de ontem. –disse Rubens bocejando de sono. –E você assistiu?-A TV estava ligada, mas estava com a cabeça cheia.-Hum... –disse Rubens segurando o bocejo. –É foda cara. Mulher tira o sono da gente quando ela quer.-Gosto do Ryan –disse ele mostrando que a parte boa disso tudo era o filho e não queria perder ver o filho crescer. –Verônica e eu conversamos a duas noites. Ficamos... –disse Leandro vagamente um sorriso preencheu o rosto de Rubens.-Fiquei com uma loira cara... Ah, é. Tá aí uma solução. B.o resolvido cara. –disse Rubens animadamente, mas Leandro tornou a dar de ombros.-Não daria certo.-Por que não? –Rubens quis saber.-Não fui feito pra mina. –disse ele meio injuriado –Que mina você pegou Binho? –perguntou mudando de assunto.-Aquela mina lá, da quebrada. –Leandro fez um ‘ah’ conhecia a garota.-Que boca a dela cara. Soube por ela mesma... Que vadia... Mas que boca! Que sempre foi a fim de ficar com você. Lógico que ela disse isso tudo chapada. E não vem não, quando ficamos ela estava na brisa! –disse ele ao amigo antes deste falar alguma coisa.Ambos riram enquanto esperavam fechar o sinal para atravessarem a faixa de pedestres. Rita lavava o cabelo embaixo do chuveiro. Suas mãos pousaram sobre a barriga que havia crescido um pouco. Estava grávida de três meses. Tomava banho para ir ao consultório médico do ginecologista da amiga que lhe dera lugar para ficar até a criança nascer.-Em breve estarei empregada. –disse ela a amiga Katúcia que a olhava sentada na privada. –Estou doida pra deixar esta vida.-Você conhece o pai da criança? –perguntou Katúcia enquanto enrolava na mão uma quantidade de papel higiênico para se limpar.-Espero que Álvaro não me encontre aqui. –desejou Rita desligando o chuveiro. Rita passou a toalha sobre o corpo. Um sorriso crescia em seu rosto enquanto se enxugava. Diante da grande possibilidade de mudar de vida e dar um futuro a criança que nasceria assim como nascia uma nova vida.Sabe Katúcia, se vida fosse nome esse seria o nome do meu filho. –disse Rita penteando o cabelo, parecia ver o futuro no espelho. Katúcia sorria alegremente diante da oportunidade de uma nova vida para amiga parecia brilhar cada vez mais. Leandro pediu a mãe quando esta chegou do serviço a tarde um dinheiro para ir ao cyber café.-É pra ver se há algum emprego na internet. Assim também aproveito para me cadastrar no emprego SP.-Está bem. Mas use para isso, viu. –disse ela entregando o dinheiro. –Aqui tem exatamente para duas horas.-Obrigado mãe. –agradeceu Leandro já saindo, indo na direção do portão.Leandro entrou no site do Google digitou no procurador emprego Sorocaba e deu enter.Encontrou seis paginas relacionadas ao que procurava. Na quarta pagina alguma coisa que lera fez com que clicasse em cima. Entrou em um blog e era sim a procura de pessoas para ocupar uma única vaga. Próximo da descrição da vaga oferecida havia a quantidade de candidatos. Eram muitos, mas a ideia de executar aquele serviço fez com que Leandro clicasse no ‘meu cadastro’. Imediatamente recebeu um e-mail.Abrindo o e-mail leu um convite para a entrevista no dia seguinte.Leandro emprestou uma caneta e um pedaço de papel ao dono do cyber café e marcou o endereço e a hora da entrevista.Satisfeito consigo mesmo Leandro fechou o site do Google e entrou no Orkut e ficou no MSN até terminar o seu tempo. “-Preciso que faça este serviço para mim. Veja este serviço como um tempo de experiência ou um free. Alguns preferem chamar de piloto. Está ao seu critério.” –disse-lhe o empregador.Era uma grana fácil. Se acaso fizesse o serviço corretamente Leandro não corria o risco de ser preso.“-Haja conforme as regras urbanas. Assim não vai levantar suspeita.” –aconselhou o empregador pouco antes de despedi-lo.Deveria entregar a mercadoria antes das dezoito horas.Leandro olhou o homem atrás do balcão e outra vez consultou ser mesmo aquela casa da esquina o endereço que procurava. Confirmado o endereço Leandro pediu outro copo d’água e bebeu até a metade. Com um muito obrigado saiu do boteco.Parou de frente ao portão. Olhou para a casa. As janelas estavam encostadas e com um pedaço pequeno aberto onde uma pessoa podia ver o movimento da rua. O ver pela fresta quem chamava. Abriu a boca fez menção chamar pelo nome da dona de casa ou arriscar um ‘o de casa’ mas se calou.Estendeu o braço, a mão empurrou o portão. Estava aberto. Viu que havia a ausência de um cadeado na tranca do portão. Antes de entrar no terreno cumprimentou os transeuntes que passaram por ele. E tomando cuidado para que o balconista do boteco que ficava na direção da casa estivesse atendendo algum freguês alheio ao que fazia Leandro assim, seguro de si adentrou. Vozes precavidas do perigo sussurravam dentro da casa. Leandro conseguiu identificar que as vozes eram de duas mulheres. Batia com a descrição recebida pelo empregador. Com uma das mãos pegou a arma e com a outra empurrou de uma só vez a porta. E entrou na casa. Seguiu a direção das vozes. E se viu num quarto e sob os olhares surpresos de duas lindas mulheres.Os olhares esperançosos de Rita deram lugares ao desespero. Katúcia passou a tremer vendo-se ao lado de sua melhor amiga e sendo alvos fáceis daquele desconhecido.-Álvaro te mandou –perguntou Rita tendo consciência da situação.Leandro não respondeu nada. Apenas olhava para elas. Evitava que a troca de palavras viesse a distraí-lo possibilitando que fugissem.-Nunca havia te visto na casa daquele desgraçado. Quem é você filha da p...Leandro se manteve calado.“-Deixe que ela fale. Verônica nunca teve controle. Ela irá se desesperar. Desta forma irá reconhecê-la.“Quanto à outra mulher, ainda não chegou a meu conhecimento o seu nome. Pouco me importa o nome daquela va...” –disse o empregador falando a respeito do serviço.-Está suave. –disse Leandro aceitando o serviço.-Vamos! –disse ele para Verônica rispidamente.-Não! –disse Katúcia pondo-se na frente da amiga. Verônica deu um passo pra trás. –Deixe ela em paz! –ordenou ela ameaçadoramente.-Sai da frente vaca! –disse ele esbofeteando Katúcia jogando-a no chão. Verônica assustada e preocupada foi ajudar a amiga caída ao chão, mas impedida por Leandro que segurava seu pulso com força a levou para fora da casa.Pouco sabia a respeito de Álvaro o seu empregador. O que podia imaginar era que este sujeito era um cafetão e um traficante iniciante. E Rita poderia ser uma prostituta além de viciada que havia fugido quando se viu grávida do próprio Álvaro.-Me deixe ficar seu filho da p... –Rita pedia em lágrimas. –Faço o que você quiser. Até te chupo se quiser. É isso o que você quer, não é desgraçado!Leandro se esforçou pra ser frio.“-Esse tipo de serviço... pede que a pessoa tenha sangue de barata.” –disse o empregador com um visível divertimento nos olhos.Esforçou para ser frio. Procurou se concentrar pensando na possibilidade de nunca mais ver o filho.“Preciso da pensão para permanecer na cidade. Juro que não quero mesmo voltar pra casa dos meus pais na capital. Como você provou está noite queria só transar em não pensa na saúde do Ryan. Se agente morasse junto eu poderia esquecer a grana. Mas você nem pensa em trabalhar para sustentar seu filho.” –disse Verônica abrindo a porta do seu quarto para que Leandro saísse.Não conseguia ver-se longe do filho. E essa possibilidade deu-lhe forças. A poucos metros da casa onde moravam as garotas do seu empregador Rita se joga no chão. Com o impacto Rita sente uma dor na barriga, a força do impacto foi tanta que perde a voz. Uma fúria toma conta de Leandro que a arrasta à distância restante. Durante o pequeno trajeto um sangue se arrasta. Em lágrimas Rita sem a voz soluça pela perca eminente.Na sacada da casa Álvaro vê a cena. Eufórico sorri para Leandro que ao entregar a encomenda lamuriante que chora em constante angustia. Ambos, prestador de serviços e empregador, fazem o acerto combinado. Com uma grande quantia em mãos e a promessa de outros serviços Leandro se vê ao lado de Ryan no parque de diversão que no mês que vêm iria ser montado próximo ao terminal de ônibus.Feliz com essa possibilidade deu às costas as lagrimas de Rita e deu de ombro a dureza com que Álvaro começou a tratar Rita.
Fernão Batilo
Publicado no Recanto das Letras em 01/08/2009Código do texto: T1731121
Publicado no Recanto das Letras em 01/08/2009Código do texto: T1731121
Leitura
Leitura
A leitura, que é um testemunho oral da palavra escrita de diversos idiomas, com a invenção da imprensa, tornou-se uma atividade extremamente importante para o homem civilizado, atendendo múltiplas finalidades.
Podemos vincular o conceito de leitura ao processo de literacia, numa compreensão mais ampla do processo de aquisição das capacidades de leitura e escrita e principalmente da prática social destas capacidades. Deste modo, a leitura nos insere em um mundo mais vasto, de conhecimentos e significados, nos habilitando inclusive a decifrá-lo; daí a noção tão difundida de leitura do mundo.
A escrita deve ter um sentido para quem lê, pois saber ler não pode ser representar apenas a decodificação de signos, de símbolos. Ler é muito mais que isso; é um movimento de interação das pessoas com o mundo e delas entre si e isso se adquire quando passa a exercer a função social da língua, ou seja, quando sai do simplismo da decodificação para a leitura e reelaboração dos textos que podem ser de diversas formas apresentáveis e que possibilitam uma percepção do mundo.
Segundo Fanny Abramovich, é por meio de narrativas que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, de outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem caráter de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é outro assunto (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo).
Dois bons motivos para se ler (entre tantos outros):
Podemos vincular o conceito de leitura ao processo de literacia, numa compreensão mais ampla do processo de aquisição das capacidades de leitura e escrita e principalmente da prática social destas capacidades. Deste modo, a leitura nos insere em um mundo mais vasto, de conhecimentos e significados, nos habilitando inclusive a decifrá-lo; daí a noção tão difundida de leitura do mundo.
A escrita deve ter um sentido para quem lê, pois saber ler não pode ser representar apenas a decodificação de signos, de símbolos. Ler é muito mais que isso; é um movimento de interação das pessoas com o mundo e delas entre si e isso se adquire quando passa a exercer a função social da língua, ou seja, quando sai do simplismo da decodificação para a leitura e reelaboração dos textos que podem ser de diversas formas apresentáveis e que possibilitam uma percepção do mundo.
Segundo Fanny Abramovich, é por meio de narrativas que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, de outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem caráter de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é outro assunto (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo).
Dois bons motivos para se ler (entre tantos outros):
- É uma atividade básica na formação cultural da pessoa. Além disso, é uma excelente atividade de lazer. A leitura de uma narrativa bem urdida, de um conto, de uma crônica e de diversos outros gêneros literários constitui uma valiosa atividade a ser incluída em nossos momentos de lazer.
- Ler é benéfico à saúde mental, pois é uma atividade neurológica. A atividade da leitura faz reforçar as conexões entre os neurônios. Para a mente, ainda não inventaram melhor exercício do que ler atentamente e refletir sobre o texto.
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