Pai contra Mãe
Os olhos de Leandro percorreram com cuidado os anúncios dos classificados de empregos. Sua mão tremula de ansiedade marcaram com um circulo os empregos que lhe interessaram. Tinha vinte e quatro anos e a possibilidade de não mais passar o fim de semana com o filho de três anos a uma semana não dormia, pensava tanto que a ansiedade causou a escassez do sono.Olhou para o relógio preso a parede informava o horário. Sete e meia da manhã. Colocou o jornal de volta no plástico e foi até a entrada da casa vizinha se inclinou diante da garagem e lançou o jornal da forma que o jornaleiro sem pré fazia. O jornal caíra próximo ao carro.No corredor do quintal de sua casa Leandro se lembrou que em outros tempos estaria voltando aquele horário para casa. Tentava se lembrar da balada da noite anterior havia perdido. Estalou a língua dentro da boca e olhou para o nada maliciosamente.Mas a lembrança das palavras de sua mãe esbofeteou seu rosto.“Se esse menino que nasceu não conseguir te dar juízo vai rancar dinheiro de você. Uma coisa ou outra... você vai ter responsabilidade... ou vai chegar mais perto a isso.” –disse sua mãe quando uma menina de exatamente dezessete anos havia aparecido na porta da sua casa.Naquela manhã há três anos atrás havia se arrependido de ter mostrado a casa onde morava a menina que ficou uma única vez. Mas agora o lamento deu lugar a oportunidade de uma nova vida mesmo continuando a ser pai solteiro ter uma criança que desde o primeira tarde que passou com ela conquistou-lhe pelo resto da vida.Leandro deixou o corpo cair sobre a cama. Não fechou os olhos. Tinha de estar pronto para sair para procurar emprego no momento em que sua mãe saia para sair.Tinha vinte minutos e não fechou os alhos até oito horas ou até ouvir os passos despertadores da mãe que ecoava no pequeno corredor do quarto para a cozinha.Leandro riu de si mesmo pelo fato de fazer esforço para recordar-se dos endereços de emprego ainda que ele próprio sempre confessasse ser uma negação para lembrar nomes ou datas comemorativas. Sempre trocava os nomes das garotas que ficava na mesma noite e chegava até dar a elas novos nomes. Mas uma coisa todos concordava, era um mestre em se tratar de sair de situações difíceis. Mas a beira de perder o direito de ver seu filho ao menos nos fins de semana e ir preso por falta de pagamento da pensão o fez perder o sono. Há uma semana não dormia direito.Também havia a pressão que sua mãe impunha a ele. Leandro dava razão à mãe. A mais de um ano seus pais haviam se separado. Era seu pai que pagava a pensão para seu filho. Enquanto Leandro pernoitava nas baladas da cidade.“Agora que seu pai se foi é hora de você conhecer o lado sério da vida. –disse sua mãe entrando no quarto do filho que estava se arrumando para outra balada. –Seu pai vai pagar a pensão por três meses apenas tempo suficiente para você encontrar um emprego. Verônica disse que vai até chegar a aceitar um acordo verbal caso você não possa pagar o preço pedido pela juíza.”E o riscou de não ver mais o filho com freqüência tirou-lhe a vontade de sair.“Assim acaba o tesão mãe. Viu só acabou com a minha brisa.” –Leandro reclamou preocupado.“Fico feliz que isso tudo surtiu efeito Leandro. Olha, há males que vem para o bem. Queira Deus que seja o seu caso.” –disse sua mãe saindo do quarto.-Leandro o Rubens ta te chamando! –gritou sua mãe do banheiro.Leandro deu um pelo. Apagou a luz do quarto e saiu.Havia marcado ir entregar currículo com Rubens.-Vamos a pé assim economizamos. Quem sabe você resolve ir pra balada –disse Rubens esperançoso. Leandro deu de ombros ao comentário do amigo.A certa altura da Avenida Leandro perguntou ao amigo.- Viu o jogo ontem? –perguntou ele a Rubens atravessando a rua.-Não. Fui pra balada de ontem. –disse Rubens bocejando de sono. –E você assistiu?-A TV estava ligada, mas estava com a cabeça cheia.-Hum... –disse Rubens segurando o bocejo. –É foda cara. Mulher tira o sono da gente quando ela quer.-Gosto do Ryan –disse ele mostrando que a parte boa disso tudo era o filho e não queria perder ver o filho crescer. –Verônica e eu conversamos a duas noites. Ficamos... –disse Leandro vagamente um sorriso preencheu o rosto de Rubens.-Fiquei com uma loira cara... Ah, é. Tá aí uma solução. B.o resolvido cara. –disse Rubens animadamente, mas Leandro tornou a dar de ombros.-Não daria certo.-Por que não? –Rubens quis saber.-Não fui feito pra mina. –disse ele meio injuriado –Que mina você pegou Binho? –perguntou mudando de assunto.-Aquela mina lá, da quebrada. –Leandro fez um ‘ah’ conhecia a garota.-Que boca a dela cara. Soube por ela mesma... Que vadia... Mas que boca! Que sempre foi a fim de ficar com você. Lógico que ela disse isso tudo chapada. E não vem não, quando ficamos ela estava na brisa! –disse ele ao amigo antes deste falar alguma coisa.Ambos riram enquanto esperavam fechar o sinal para atravessarem a faixa de pedestres. Rita lavava o cabelo embaixo do chuveiro. Suas mãos pousaram sobre a barriga que havia crescido um pouco. Estava grávida de três meses. Tomava banho para ir ao consultório médico do ginecologista da amiga que lhe dera lugar para ficar até a criança nascer.-Em breve estarei empregada. –disse ela a amiga Katúcia que a olhava sentada na privada. –Estou doida pra deixar esta vida.-Você conhece o pai da criança? –perguntou Katúcia enquanto enrolava na mão uma quantidade de papel higiênico para se limpar.-Espero que Álvaro não me encontre aqui. –desejou Rita desligando o chuveiro. Rita passou a toalha sobre o corpo. Um sorriso crescia em seu rosto enquanto se enxugava. Diante da grande possibilidade de mudar de vida e dar um futuro a criança que nasceria assim como nascia uma nova vida.Sabe Katúcia, se vida fosse nome esse seria o nome do meu filho. –disse Rita penteando o cabelo, parecia ver o futuro no espelho. Katúcia sorria alegremente diante da oportunidade de uma nova vida para amiga parecia brilhar cada vez mais. Leandro pediu a mãe quando esta chegou do serviço a tarde um dinheiro para ir ao cyber café.-É pra ver se há algum emprego na internet. Assim também aproveito para me cadastrar no emprego SP.-Está bem. Mas use para isso, viu. –disse ela entregando o dinheiro. –Aqui tem exatamente para duas horas.-Obrigado mãe. –agradeceu Leandro já saindo, indo na direção do portão.Leandro entrou no site do Google digitou no procurador emprego Sorocaba e deu enter.Encontrou seis paginas relacionadas ao que procurava. Na quarta pagina alguma coisa que lera fez com que clicasse em cima. Entrou em um blog e era sim a procura de pessoas para ocupar uma única vaga. Próximo da descrição da vaga oferecida havia a quantidade de candidatos. Eram muitos, mas a ideia de executar aquele serviço fez com que Leandro clicasse no ‘meu cadastro’. Imediatamente recebeu um e-mail.Abrindo o e-mail leu um convite para a entrevista no dia seguinte.Leandro emprestou uma caneta e um pedaço de papel ao dono do cyber café e marcou o endereço e a hora da entrevista.Satisfeito consigo mesmo Leandro fechou o site do Google e entrou no Orkut e ficou no MSN até terminar o seu tempo. “-Preciso que faça este serviço para mim. Veja este serviço como um tempo de experiência ou um free. Alguns preferem chamar de piloto. Está ao seu critério.” –disse-lhe o empregador.Era uma grana fácil. Se acaso fizesse o serviço corretamente Leandro não corria o risco de ser preso.“-Haja conforme as regras urbanas. Assim não vai levantar suspeita.” –aconselhou o empregador pouco antes de despedi-lo.Deveria entregar a mercadoria antes das dezoito horas.Leandro olhou o homem atrás do balcão e outra vez consultou ser mesmo aquela casa da esquina o endereço que procurava. Confirmado o endereço Leandro pediu outro copo d’água e bebeu até a metade. Com um muito obrigado saiu do boteco.Parou de frente ao portão. Olhou para a casa. As janelas estavam encostadas e com um pedaço pequeno aberto onde uma pessoa podia ver o movimento da rua. O ver pela fresta quem chamava. Abriu a boca fez menção chamar pelo nome da dona de casa ou arriscar um ‘o de casa’ mas se calou.Estendeu o braço, a mão empurrou o portão. Estava aberto. Viu que havia a ausência de um cadeado na tranca do portão. Antes de entrar no terreno cumprimentou os transeuntes que passaram por ele. E tomando cuidado para que o balconista do boteco que ficava na direção da casa estivesse atendendo algum freguês alheio ao que fazia Leandro assim, seguro de si adentrou. Vozes precavidas do perigo sussurravam dentro da casa. Leandro conseguiu identificar que as vozes eram de duas mulheres. Batia com a descrição recebida pelo empregador. Com uma das mãos pegou a arma e com a outra empurrou de uma só vez a porta. E entrou na casa. Seguiu a direção das vozes. E se viu num quarto e sob os olhares surpresos de duas lindas mulheres.Os olhares esperançosos de Rita deram lugares ao desespero. Katúcia passou a tremer vendo-se ao lado de sua melhor amiga e sendo alvos fáceis daquele desconhecido.-Álvaro te mandou –perguntou Rita tendo consciência da situação.Leandro não respondeu nada. Apenas olhava para elas. Evitava que a troca de palavras viesse a distraí-lo possibilitando que fugissem.-Nunca havia te visto na casa daquele desgraçado. Quem é você filha da p...Leandro se manteve calado.“-Deixe que ela fale. Verônica nunca teve controle. Ela irá se desesperar. Desta forma irá reconhecê-la.“Quanto à outra mulher, ainda não chegou a meu conhecimento o seu nome. Pouco me importa o nome daquela va...” –disse o empregador falando a respeito do serviço.-Está suave. –disse Leandro aceitando o serviço.-Vamos! –disse ele para Verônica rispidamente.-Não! –disse Katúcia pondo-se na frente da amiga. Verônica deu um passo pra trás. –Deixe ela em paz! –ordenou ela ameaçadoramente.-Sai da frente vaca! –disse ele esbofeteando Katúcia jogando-a no chão. Verônica assustada e preocupada foi ajudar a amiga caída ao chão, mas impedida por Leandro que segurava seu pulso com força a levou para fora da casa.Pouco sabia a respeito de Álvaro o seu empregador. O que podia imaginar era que este sujeito era um cafetão e um traficante iniciante. E Rita poderia ser uma prostituta além de viciada que havia fugido quando se viu grávida do próprio Álvaro.-Me deixe ficar seu filho da p... –Rita pedia em lágrimas. –Faço o que você quiser. Até te chupo se quiser. É isso o que você quer, não é desgraçado!Leandro se esforçou pra ser frio.“-Esse tipo de serviço... pede que a pessoa tenha sangue de barata.” –disse o empregador com um visível divertimento nos olhos.Esforçou para ser frio. Procurou se concentrar pensando na possibilidade de nunca mais ver o filho.“Preciso da pensão para permanecer na cidade. Juro que não quero mesmo voltar pra casa dos meus pais na capital. Como você provou está noite queria só transar em não pensa na saúde do Ryan. Se agente morasse junto eu poderia esquecer a grana. Mas você nem pensa em trabalhar para sustentar seu filho.” –disse Verônica abrindo a porta do seu quarto para que Leandro saísse.Não conseguia ver-se longe do filho. E essa possibilidade deu-lhe forças. A poucos metros da casa onde moravam as garotas do seu empregador Rita se joga no chão. Com o impacto Rita sente uma dor na barriga, a força do impacto foi tanta que perde a voz. Uma fúria toma conta de Leandro que a arrasta à distância restante. Durante o pequeno trajeto um sangue se arrasta. Em lágrimas Rita sem a voz soluça pela perca eminente.Na sacada da casa Álvaro vê a cena. Eufórico sorri para Leandro que ao entregar a encomenda lamuriante que chora em constante angustia. Ambos, prestador de serviços e empregador, fazem o acerto combinado. Com uma grande quantia em mãos e a promessa de outros serviços Leandro se vê ao lado de Ryan no parque de diversão que no mês que vêm iria ser montado próximo ao terminal de ônibus.Feliz com essa possibilidade deu às costas as lagrimas de Rita e deu de ombro a dureza com que Álvaro começou a tratar Rita.
Fernão Batilo
Publicado no Recanto das Letras em 01/08/2009Código do texto: T1731121
Publicado no Recanto das Letras em 01/08/2009Código do texto: T1731121

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